Sexta-feira, Outubro 30, 2009

Os ombros suportam o mundo

Os ombros suportam o mundo
1935 - SENTIMENTO DO MUNDO


Os ombros que suportam o mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertam ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.


Carlos Drummond de Andrade

Quarta-feira, Outubro 28, 2009

Antes de morrer preciso fazer ao menos isso!

Antes de morrer preciso fazer ao menos isso! Tocar a Chaconne de J.S. Bach, essa peça mexe comigo, é algo sem explicação. Originalmente escrita para violino.(caso queira ver essa versão clique aqui)
Agora é 1:30 da manhã e estou escutando isso no silêncio que reina no bairro, pela misericórdia Divina.
Que obra! J. S. Bach foi o escolhido desta terra (nessa hipérbole, diria que seria o único) pra fazer música de verdade, música que chega aos ouvidos de Deus de maneira espetacular.

Essa peça talvez seja o que há de mais complexo no mundo do violão, mas meu desejo é tocar isso antes de morrer. É óbvio que suponho que eu morra de velhice, nesse mundo onde todo mundo tende a morrer de câncer. Mas tenho esperanças de ao menos tocar as notas dessa obra que o mestre Andres Segóvia executa com tamanha musicalidade e perfeição.
Que passeio divino pelo contraponto perfeito.

Estou com minha alma purificada.

Essa música é sem pressa. Ela prega contra esse mundo maldito e decadente, que nos mata de correr e de cansaço pra não nos levar a lugar algum; até porque não existe lugar para se chegar.
Onde queremos chegar??? não sabemos essa resposta... que grande droga está nos entorpecendo?

Mundo dinheirista, da desonestidade legal, da compra e da venda da vida, das horas de trabalho (isso é justo!!! na visão do sistema, compro sua vida, mas pago por isso) e as horas de vida que voam como um pássaro para bem longe, como se isso tivesse algum preço.

Essa música me faz voltar ao período barroco e pensar que devia apenas cultivar e alimentar minha família, ter muitos filhos e compor música, pra compartilhar com os amigos, fazer saraus diários e ouvir apenas pela beleza de ouvir.
Conseguimos achar uma música de aproximadamente 16 minutos uma música muito longa; Quem tem esse tempo?

Maldição.

Incentivo hoje, vc que está lendo esse blog, a dedicar uns minutos para essa renovação. Escute cada nota, escute com cuidado cada passagem. Se vc é apreciador de vinho, peço o mesmo cuidado como quem saborea um raro e caro vinho.

Nesse vídeo só está a foto do Andres Segóvia e o áudio da peça (Chaconne)que está dividida em suas partes.

Aprecie sem moderação.








ah! que culto meu Deus recebeu hoje.

Segunda-feira, Outubro 19, 2009

Sarau Faca Amolada

Finalmente saiu o vídeo editado do sarau Faca Amolada que aconteceu no dia 02 de outubro de 2009 em Blumenau Santa Catarina.
Apreciem.

Mais absurdos

É com sincera tristeza que posto esses vídeos no meu blog, mas ao mesmo tempo, isso me dá uma força muito grande para entender que só em Cristo está a minha eperança.







Agradecimentos





Gostaria de agradecer aos amigos que puderam comparecer na Apresentação de Lançamento do meu disco dia 17/10, a presença de vcs foi muito preciosa.

Aos que não foram,não fiquem tristes,pois em breve postarei fotos no meu perfil do orkut com os detalhes para que você não se sinta excluído...rs

A minha impressão do evento é que foi agradável. Procurei não cansar os ouvintes, não falar demais e me preocupei em cantar. A apresentação toda teve uma duração aproximada de 1h.

Gostaria de agradecer os músicos amigos:

Alexandre Damasceno - Bateria
Robertinho Carvalho - Baixo
Marcinho Teixeira - Percussão
Jorge Ervolini - Guitarra
Rodrigo Braga - Piano
Sara Müller - Flauta

Aos amigos do som Vini Bertolino e Fernando Maciel que arrebentaram. O som ficou ótimo. Valeu mesmo.
Gostaria de agradecer os amigos Lisa, que viajou e levantou cedo para decorar o local, Anderson Monteiro, que pintou um quadro lindíssimo, que estará na minha sala, Selma, que acordou muito cedo tb pra decorar o espaço e o Stênio pela força em fazer o evento e estar lá...rs no apoio moral.
Quero agradecer ao Tuco pelos textos que foram lidos que deram um refinamento especial ao lançamento. Muito obrigado mano.

Li outras coisas anteriormente postados neste blog de; Paulo Brabo, Cecília Meireles e Dostoiévsk.

E a Deus o autor de tudo isso, a razão das cantorias e dos questionamentos de cada acorde e cada melodia. Obrigado meu Deus.

Sexta-feira, Outubro 16, 2009

Textos de amigos pensadores, poetas e pensadores

Estes textos serão lidos no lançamento do CD Calar dos Ruídos no sábado dia 17/10. Para aquele que quiserem se antecipar estou dispondo.

A VERDADE E SUA METÁFORA

Paulo Brabo

Em certo país dava-se o nome de metáfora a qualquer recipiente próprio para conter algum líquido. Havia nesse país uma fonte de água cristalina, porém tão amarga que dizia-se bastar um único gole para matar de desgosto um homem adulto; cria-se no entanto que diluída ou em pequenas doses essa água tinha propriedades mágicas ou medicinais, e deu-se a ela o nome de verdade.


Levas de peregrinos acorriam incessantemente à fonte, e partiam para seus lugares de origem levando a verdade em seus vasos metafóricos.


Porém uma rigorosa seita, que cria que a verdade deve ser experenciada sem o auxílio de metáforas, atacava as caravanas de peregrinos. Querendo ensiná-los a obter a verdade em estado puro, os sectários destruíam a pauladas as metáforas que a continham. Quebrados os recipientes, a verdade se derramava e desaparecia no solo, ficando sem ela peregrinos e sectários.


Certa vez um rapaz voltava da fonte levando a verdade em sua metáfora quando viu de longe a aproximação dos sectários. Não querendo ver derramada a verdade que trazia consigo, o rapaz não hesitou e bebeu em goles resolutos toda a água da vasilha.


– Onde está a verdade que você trazia nessa metáfora? – perguntaram os perseguidores.


– Eu bebi – desafiou o rapaz. – Agora a verdade está dentro de mim.


E os sectários mataram-no a pauladas.


Em compensação, começou a correr a notícia de que a verdade, embora amarga, não era mortal, e que o recipiente próprio para conter a verdade era um ser humano. Com o passar do tempo os próprios homens passaram a ser chamados de metáforas, e conta-se que nunca estiveram mais perto da verdade.


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ALÇAPÃO
Tuco - www.atrilha.blogspot.com



Não é fácil alçar vôo. Tem muito alçapão por aí e perigo por todos os lados. Aquilo que nos alimenta e protege é nossa prisão. Ainda que tenhamos consciência de nossa condição de prisioneiros, sabemos que é só na segurança da gaiola que temos sombra e água fresca. Não queremos alçar vôo.



No centro da nossa ilusão há somente uma grande e assustadora roda que prossegue girando e girando. Nós é que a movemos. Estamos todos correndo dentro dela, como ratos. Ela tem muitos nomes, muitas faces. Alguns a conhecem como trabalho, outros a chamam de família, outros ainda de igreja. Cada um acredita-se livre do outro, mas estão todos juntos. Seja qual for o nome, o destino que nossa ilusão criou é o sucesso, o caminho é a performance e o guia a segurança e o conforto.



A loucura daquele homem que não tinha onde reclinar a cabeça foi convidar-nos a voar. Mostrou-nos a porta da gaiola aberta. Xô, disse ele, voem, libertem-se. Abram mão do alimento, da segurança, da proteção, do sucesso, da glória. Só assim serão livres.


Pobre infeliz. Não sabia que ninguém o seguiria por isso. A liberdade é nosso maior inimigo. Tranquem a porta, joguem a chave fora. Quem teria coragem de voar?


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A LOUCURA E O SUCESSO

Tuco - www.atrilha.blogspot.com


O cara era louco. Vivia por aí falando uma porção de coisas interessantes, mas impraticáveis. Andava à esmo, não tinha onde dormir nem o que comer. Não sei se um dia teve emprego ou família. Quando o conheci vagava feito um doido, ajudando pessoas carentes, fosse de comida, conselho, carinho ou abraço. Não participava de nenhuma ONG nem pertencia a algum grupo religioso.



Tentei falar com ele algumas vezes. Argumentar que ele precisava de apoio se quisesse promover a justiça. Evidentemente era preciso se vestir melhor, fazer a barba e usar um bom gel naqueles cabelos desgrenhados. Depois disso, seria imprescindível redigir um projeto e angariar recursos. Mas não um projetinho qualquer. Era preciso sonhar, ter visão de mercado, olhar longe. Com os recursos na mão poderia promover cursos, palestras e congressos, alugar grandes teatros, compor músicas, montar uma banda, fazer shows e ter uma sede própria de onde pudesse comandar tudo. Estrutura física é importantíssima quando se quer promover algo verdadeiramente grandioso e com um bom investimento em um ambiente agradável, climatizado e bem projetado, ele iria longe. As pessoas lotariam o grande salão da sede de sua empresa. Viriam aos milhares. Ele poderia organizar as palestras em vários turnos, vários dias por semana. Poderia também criar uma série de outros eventos dirigidos aos mais variados públicos, para manter todos os seus seguidores ocupados e perto de si.



Insisti com ele sobre isso mais de uma vez, mas ele nunca me deu ouvidos. Acabou sozinho, pobre, esquecido. Foi morto por alguns desafetos.



Mas eu fiz meu projeto baseado em suas idéias e obtive todo sucesso que ele jamais sonhou. Cito seu nome com freqüência; ele merece os créditos. Evidentemente cuido para que ninguém se sinta obrigado a segui-lo de verdade. Basta que me sigam. Basta que participem das palestras e eventos que promovo. E os que me seguem têm a nítida sensação de estarem seguindo aquele mártir.



Temos uma parceria. Ele não a aprovaria, mas eu sei que assim funciona melhor. Eu perpetuo seu nome e ele me dá sucesso.



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No mistério do Sem-Fim

Cecília Meireles

No mistério do Sem-Fim,

equilibra-se um planeta.

E, no planeta, um jardim,

e, no jardim, um canteiro:

no canteiro, urna violeta,

e, sobre ela, o dia inteiro,

entre o planeta e o Sem-Fim,

a asa de urna borboleta.



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Uma gente laboriosa e mercadora; cuidam da 'felicidade geral';... Não, a vida me é dada uma vez, e ela nunca mais voltará: eu não quero esperar a 'felicidade geral'. E eu mesmo quero viver, do contrário o melhor seria não viver.

Fiódor Dostoiévski em Crime e Castigo, Editora 34, página 284.

Segunda-feira, Outubro 12, 2009

Poema

Num casebre de madeira
Ou quem sabe, pau a pique
Ancião, viola, grite!
Aquecido por lareira

Fala da saudosa infância
Onde tudo era mato
Faz do seu cantar um ato
Desabafo de uma ânsia

Era como um trovador
Que dizia de donzelas
Pique esconde, cabra cegas
No olhar triste do cantor

Canta o hoje o poeta
Em seu apertado apê
Fala de tudo o que vê
Da poesia concreta

Carros, avenida, asfalto
Esses rios poluídos
O excesso de ruídos
O medo, perigo de assalto

O poeta cidadão
Chora em suas redondilhas
Porque somos todos ilhas
De concreto e solidão?

Sábado, Outubro 10, 2009

CD - Ecológico

Meu amigo Stênio Marcius teve uma execelnte idéia que é a de gravar um disco com tema ecológico, inclusive algumas letras desse novo projeto podem ser encontradas no seu blog.
Ele me pediu a algum tempo que escrevesse uma letra para que exemplificasse pequenas atitudes que mudaria significativamente o caminho que o mundo tem tomado em termos ambientais, não sei ele vai aprovar essa, porque escrever para o mestre é complicado, mas postei aqui mesmo assim...rs
Sei que nessa visão ambiental existe muita política e muitos interesses escusos, mas de qualquer forma precisamos mudar nossos hábitos que são prejudiciais.
Este poema mandei ao Stênio para que ele coloque música.

Eis aqui:


Para os dentes escovar feche a torneira
E ao limpar o chão use vassoura
Desperdício não é brincadeira
Vamos tratar a água qual tesouro

Temos que preservar a Amazônia
Parar de derrubar essas madeiras
E utilizar com parcimônia
Não dar atenção para asneiras

Bom é andar a pé e não de carro
Exercitar o corpo ter saúde
Não poluir o ar com o cigarro
Contagiar com a nossa atitude

Reciclar o lixo é necessário
Reduzir o consumo é nossa luta
Repartir as roupas do armário
Que não caia em nós toda essa culpa

Que as empresas parem com a ganância
Que não se destrua a natureza
Que as gerações tenham infância
Que eles desfrutem da beleza

Vamos amar o nosso Planeta
Reutlizando todo o lixo
Céu azul, de estrelas e cometas
Amando pessoas, flor e bicho.